• Navegantes do Perisca

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA



Nove países, mais de 260 milhões de falantes, hoje é dia de celebrar a Língua Portuguesa! Nós, do O Periscópio, amamos essa língua que é a nossa voz, a nossa marca no mundo. Para comemorarmos esse dia tão especial, propusemos um desafio para nossos amigos: eles nos dariam palavras e delas seria criado um texto comemorativo. As palavras foram as mais variadas possíveis! Todas foram usadas e estão registradas em vermelho no texto. Foi um trabalho gostoso e que não poderia de deixar registrado o momento histórico que estamos vivendo. Nossa homenagem é o texto Nossa Herança.


Nossa Herança

Existem coisas surpreendentes no mundo. Entre elas, a velocidade das mudanças. Quando o mundo ia entrar no ano 2000 muitas previsões foram feitas: o bug do milênio, a terceira guerra mundial, catástrofes apocalípticas. Ainda bem que ninguém avisou isso para o ano 2000 e ele chegou como qualquer outro ano, cheio de possibilidades. E assim foram os próximos anos, novidades, “velhidades”, coisas boas e ruins. Nesse passar do calendário, caminhamos até 2020. Na virada do ano, Clara e a família se reuniram, como de costume na casa da avó Emília. Clara adorava passar o réveillon na casa da avó. Era uma alegria só: comida boa, música e a tradicional ida até a praia para ver a queima de fogos, pular sete ondas, dar um mergulho no mar quando ainda os fogos cintilavam no céu, com inúmeras variações de cores e brilhos, e ir dormir só quando a última estrela sumisse do céu. O que ninguém sabia naquele momento é que 2020 iria ser um ano muito diferente para todos.

Janeiro e fevereiro começaram com notícias preocupantes. Um vírus novo havia surgido e a China tentava combatê-lo. A China é tão longe, pensava Clara, esse vírus vai ficar por lá. Como Clara muita gente assim pensava, só que vírus tem que cumprir seu papel de vírus e saiu da China e foi apavorar o mundo. A humanidade toda foi pega de surpresa. Um monte de novas palavras novas e novos hábitos começaram a fazer parte do cotidiano das pessoas. E veio a pior delas, o isolamento social. Os pais de Clara sentaram com ela e com um ar bem grave falaram do novo cotidiano: não haveria mais escola presencial, só on line; todos teriam que ficar em confinamento, sair só para comprar e se fosse muito necessário, lavar as mãos muitas, muitas e muitas vezes por dia e tirar os sapatos antes de entrar em casa, usar máscara para sair, álcool em gel, desinfetar as embalagens. Mas a pior notícia de todas para Clara foi que não poderiam ir até a casa da avó, como faziam todos os finais de semana. Os olhos da menina se encheram de lágrimas. A mãe a abraçou em lágrimas também. “Clara – a mãe disse – agora a gente tem que cuidar uns dos outros. Proteger a vovó e os mais frágeis. Responsabilidade e resiliência é o que precisamos nesse momento.”. Clara não entendeu bem a fala da mãe, mas sabia que era preciso confiar, fazer a sua parte para que tudo acabasse logo.

Os meses que se seguiram ensinaram para Clara e para muita gente que a vida tem o rumo que ela quer. O isolamento social demorou mais do que se esperava. Clara não aguentava mais ficar em casa, principalmente nos dias em que o sol brilhava, inundando o dia de luz, e ela pensava que podia estar no parque, brincando com os amigos. E as aulas on line, então? O maior sufoco! Todo mundo falando junto nos aplicativos de reuniões, a falta do abraço da professora, das conversas no recreio e até do carimbo de coraçãozinho que a professora colocava nos cadernos todos os dias no final da aula. Era um exercício de superação ficar concentrada com tantas coisas passando pela cabeça. Foi quando o pai chegou com uma notícia maravilhosa: o confinamento acabara! Eles poderiam visitar a vovó!

A viagem até a casa da avó parecia que estava sendo feita pela primeira vez. Parece que aquele tempo todo de isolamento havia aumentado a percepção e a sensibilidade de Clara para olhar o mundo. Tudo tinha um olhar de primeira vez. Clara havia aprendido a ressignificar o viver.

Um abraço apertado, um choro de felicidade e muitos, muitos, muitos beijos. A avó tinha os olhos tranquilos, diferente de Clara que estava inquieta e doida para correr pelo quintal, conversar, comer a comidinha deliciosa da avó (não havia feijão melhor que o dela) e aquela mega tigela cheia de doce de abóbora com queijo fresco. Dona Emília pegou Clara pela mão: vamos passear, Clarinha (era assim que ela gostava de chamar a menina e era só ela que podia a chamar assim, afinal Clara estava crescendo, mas queria ser sempre menina para a avó) e Clara foi. Caminharam pelas ruas cheia de flores até a praia. A menina parecia que queria registrar casa cena do trajeto como uma fotografia: a borboleta amarela que voava ao redor delas, as flores lilases que salpicavam nas árvores muito verdes, a areia que se espalhava pelo asfalto indicando que a praia estava próxima. Havia a valorização de cada instante que não pudera viver naqueles meses, os olhos da menina tinham a alegria da liberdade e a nostalgia do que fora perdido. Na praia as duas aproveitaram de montão. Nadaram, mergulharam, brincaram até cansarem. Dona Emília estendeu uma canga no chão para as duas descansarem, sob o sol morno daquele dia especial.

- Vó...como foi para você ficar esse tempo todo sozinha?

- Eu não estava sozinha, Clarinha.

A menina se espantou. Como assim? A avó havia enganado a todos e tinha ficado com alguém? Que perigo?

- Como assim, vó?! A senhora não sabia que não podia?

Dona Emília riu e segurou a mão da menina.

- Você esteve comigo esse tempo todo. Você e um monte de gente.

Clara não estava entendendo nada.

- Todos os dias você me mandava uma mensagem de bom dia e a gente conversava. Seus pais também conversavam comigo todos os dias. Eu tenho muitos amigos na minha biblioteca e cada um deles, cada livro-amigo é um mundo que eu pude revisitar. Sabe, Clarinha, um escritor português - dona Emília achou melhor nem explicar naquele momento que Fernando Pessoa era muitos – dizia que “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”.

- Nossa, vó, que bonito isso!

- A Língua Portuguesa é linda mesmo, Clarinha. E foi ela que me fez companhia nesses tempos de solidão. Fiz amizade com um monte de gente de outros países. Um amigo de Moçambique outro de Angola, outro....

- Ué, não é só Brasil e Portugal que falam português?

- Que nada! São nove países, um território chinês, Macau. Mais de 260 milhões de pessoas falam a mesma língua. E tem tanta gente falando português no mundo que eu acabei fazendo um monte de amizades, aprendendo novos sotaques, novas expressões. Foi um tempo de partilhas, de descobertas. É claro que estar perto de vocês, de poder abraçar, beijar, contar histórias juntos fez falta. Mas foi um tempo de oportunidade de começar um mundo novo. Um mundo de amor, de inclusão, de paz, de solidariedade, de coisas que as pessoas estavam esquecendo e que eram importantes. A gente lembrou que pode se confraternizar, mesmo estando longe. Que nossa língua nos une, não importa em que parte do mundo você esteja. Que o significado de saudade*, que só existe na Língua Portuguesa, só sabe quem sente.

- Então a senhora ficou acompanhada pelas palavras?

- Pelas palavras, Clarinha e por tudo que elas significam para nós. Sabe, as pessoas vão registrar esses momentos que estamos passando. Escreverão livros, farão entrevistas, reportagens. E lá na frente as pessoas poderão entender o que aconteceu pelas palavras que serão ditas e escritas. A palavra é a nossa maior herança. É o que nos liberta, o que nos prende, é a recordação e o aprendizado. O novo futuro é auspicioso!

Clara olhava para o céu e parecia que as palavras da avó bailavam no ar. Será que chegariam do outro lado do mar? Será que encontrariam ouvidos atentos que descobrissem a beleza da Língua Portuguesa? Ah, esses navegantes que saíram pelo mundo e levaram suas palavras e sonhos para outros lugares! Ah, navegar é preciso! E fazer nossa voz pedindo por um mundo melhor ser ouvida é urgente! Clara se levantou e foi até a beira da água molhar os pés. Dona Emília a observava de longe. Sabia que suas palavras ficariam no coração de Clarinha. Era um tempo de renascimento e celebração. Clara mergulhou e voltou ao encontro da avó com um abraço molhado. Dona Emília não disse mais nada. Ainda não havia aprendido uma palavra que pudesse definir um abraço cheio de amor.





(*Existem palavras derivadas do latim em outras línguas românticas semelhantes, porém o significado de saudade na Língua Portuguesa como ausência, dor, falta de alguém ou algo que se foi, é único)

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