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A educação é um parto prematuro

  • 12 de mai.
  • 4 min de leitura


A escolarização para todos é uma conquista moderna, mas ainda é um território de ninguém. Ou quem sabe seja um território de muitos. O que mais chama a atenção é a ineficiência de um sistema escolar que mantém a desigualdade, favorecendo os que possuem maiores condições económicas. Estamos a mais de um quarto do século XXI e isso ainda é realidade. Nessa frase já há conceitos que algumas pessoas poderão ter dificuldades em perceber: frações e numerais romanos. Isso, infelizmente, não é um modo de se dizer. Há pouco tempo, conversando com amigas universitárias, descobrimos que elas não faziam ideia de como calcular percentagem. Elas usavam estratégias, provavelmente construídas durante o período escolar, que as levavam a alguns acertos aleatórios, o que foi suficiente para chegarem até onde chegaram. Pessoas cultas, falantes de diversas línguas, mas com uma base matemática totalmente ineficaz. É claro que isso é apenas um exemplo, mas que reflete o panorama catastrófico de uma escola que não acompanha seus alunos, seus professores e as necessidades reais de cada um deles. Além de, tragicamente, não preparar os alunos para o mundo em que vivem.

O fracasso da escola pode ser medido pela quantidade de escolas de explicações que proliferam na Europa. A explicações tapam o buraco deixado pelo que a escola não cumpriu. Os rankings internacionais também mostram esse desastre que há mais de um século já é apontado por grandes estudiosos. Não que os rankings sejam a melhor coisa do mundo, nem que mostrem o real problema. Eles mostram resultados e isso poderia ser um motor de mudança. Quando o PISA mostra que Portugal caiu 20,6 pontos no ranking, isso representa o tamanho do abismo que temos que superar. O que mais me assusta é que, quando vou às escolas, todos já fazem tudo que é certo, pelo menos é o que dizem. Então porquê não está funcionando? Eu não tenho respostas, mas tenho boas pistas. A primeira é a rapidez de um ano letivo, que passa voando. São nove meses, sem contar os finais de semana e algumas pausas letivas. No ensino universitário, então, além de tudo isso, ainda temos as semanas de avaliação, nas quais não há aulas. Mas isso é outra história, voltemos ao básico. Nove meses de aulas para dar conta de um processo de aprendizagem que é individual, mas que acontece coletivamente. O currículo inchado, com os conteúdos passando à velocidade supersónica nem sempre dá margem para dúvidas ou tempo para serem trabalhados de maneira mais consistente. Eles têm de ser cumpridos. As aprendizagens essenciais da DGE nos mostra isso muito claramente:

Progressão curricular do 2.º ao 4.º ano do 1.º ciclo do ensino básico em Portugal, nas três principais disciplinas:



O tsunami de conhecimentos que um aluno de 4º ano deve adquirir não condiz com o tempo proposto para que isso aconteça. E não estou nem me referindo à aprendizagem individual. Se formos pensar no tempo que seria realmente necessário para consolidar o conhecimento e não apenas se preparar para as avaliações que irão garantir a progressão dos alunos, nove meses seriam insuficientes. Não há tempo para a descoberta, para a curiosidade, para ser ouvido, para que o professor possa pensar em soluções para as dificuldades que irão aparecer. Existem estudos, existe verba, existem professores dedicados, existem alunos empenhados. Mas no final das contas o que importa é entulhar o conteúdo goela abaixo, tal como alimentam os gansos para se obter o foies gras[1]. O resultado são crianças e adolescentes adoecendo emocionalmente, professores sem estímulo e uma produção acelerada de pessoas idiotizadas pelo sistema. Assim, o resultado é mão de obra barata, adultos sem senso crítico ou capacidade de argumentação.

Mas como resolver, então? São inúmeros estudos e mestres que mostram o que é válido e o que dá certo. Em vários países existem escolas que buscam alternativas para fugirem desse ciclo alucinado de faz de conta pedagógico. Só que, em sua maioria, são escolas que não estão acessíveis a todos e que acabam ficando isoladas em meio ao caos. Falta, a meu ver, é coragem para assumir o que está errado. O erro é o precursor do progresso, sem ele nada vai pra frente. Consultei diversos planos pedagógicos de escolas públicas em Portugal e é incrível como é tudo maravilhoso. No papel, porque na prática os problemas só aumentam.

Um parto prematuro não traz benefício para ninguém. O recém-nascido sofre, a família sofre. Um aluno que progride artificialmente na escola sofre, a família sofre. Não é a retenção que resolverá esse dilema, nem há uma solução mágica. Há, sim, de termos coragem para enfrentarmos nossas dificuldades, olharmos de frente aquilo que escondemos por baixo de palavras rebuscadas e trabalharmos para que todos possam ter chances de se desenvolverem como seres humanos. O que a vida quer da gente é coragem[2].

 

 


[1] O foie gras (termo francês que significa "fígado gordo") é produzido através de uma técnica chamada gavagem. Este processo consiste na alimentação forçada de gansos ou patos, resultando num fígado hipertrofiado e com acentuada infiltração gordurosa (esteatose hepática).

 

[2] “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem.”

João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

 

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