A neve que aquece
- Navegantes do Perisca

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Apresentar um livro é sempre um momento importante, tanto para o autor, quanto para o próprio livro. Sim, cada livro tem uma trajetória que muitas vezes leva tempo até ele encontrar o caminho até as mãos dos leitores. A Neve que não Havia é um livro que trata de um tema sensível e atual, as alterações climáticas, tendo como pano de fundo um futuro distópico. Foi escrito e publicado no Brasil e agora começa a chegar, aos poucos, nas mãos de crianças e jovens portugueses. Antes que eu me esqueça: ele não tem uma edição portuguesa, cada exemplar atravessa o oceano em busca de novos leitores, o que não é fácil, mas é absolutamente fantástico.
Fui convidada a apresentar o meu Nevinha - é assim que eu o chamo carinhosamente´- na Biblioteca Municipal de Peso da Régua. Para quem não conhece, Peso da Régua é uma cidade que faz parte da região do Douro Vinhateiro, atravessada por esse rio e cercada de vinhas. Já conhecia a cidade e estar lá para falar de livros com crianças e adolescentes foi motivo de muita alegria para mim.
Os livros contam e também possuem suas próprias histórias. Nos seis anos que moro em Portugal já passei diversos invernos, porém pouca neve vi nesse período. Há lugares que neva muito por aqui, como é o caso do Gerês, Serra da Estrela, Vila Real, Bragança, mas como eu resido em outro concelho nunca vi aquela neve que todos gostamos de ver e brincar. Isso talvez se deva às alterações climáticas que aquecem o planeta e estão a degelar os glaciares. O dia da apresentação do livro, 24 de janeiro, foi um sábado marcado pela depressão Ingrid que trouxe muito frio, chuva e neve! Sim, senhores, o dia que levei o meu livro A Neve que não Havia, havia neve por todo o lado. Fiquei deslumbrada com a paisagem gelada do caminho e pensando quanto o homem já destruiu e pode vir a destruir, a ponto de alterar o ciclo natural das coisas. No livro, as pessoas já não conhecem mais a palavra neve. Não sabem o que significa, nem a que se refere. E como tudo que faz parte da natureza, a neve também tem o seu papel, alimentando rios, mantendo ecossistemas, fazendo o que tem de ser feito com o seu feitio gélido e necessário. Não podemos esquecer que o rio Amazonas, um colosso de água doce que corta alguns países da América do Sul, nasce do degelo da neve na Cordilheira dos Andes. Um fiozinho de água gelada que se torna o maior rio do mundo em volume de água. O quanto perderemos se a neve deixar de existir? Quantos animais, rios e ecossistemas serão extintos sem ela? Nosso papel na sociedade é fundamental para que isso nunca aconteça.
Depois de estradas e montanhas pintadas de branco, cheguei à Biblioteca Municipal de Peso da Régua. Numa sala belíssima, fui recebida afetuosamente por todos. Apresentei o livro para um público de raparigas que estudam no município. Algumas já leitoras e outras que não gostam de ler. Umas perguntadeiras, outras ouviram em silêncio. Conversamos, respondi perguntas, ouvi as miúdas e autografei o livro para elas. Foi uma tarde para não ser esquecida, que aqueceu a todos, mesmo nevando nas redondezas. Torço para que mais momentos assim cheguem para nós, autores e autoras, com proximidade, alegria, curiosidade e descoberta. Torço para que iniciativas como essa possam estimular a leitura crítica dos livros e do mundo. Torço para que a neve continue a cair e que nos lembre sempre que é preciso continuar a lutar pelo nosso planeta.










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